Um dia, a minha filha Sara fez-me uma pergunta antes de se deitar e quero partilhar contigo, porque me tocou fundo e talvez também te faça pensar.

“Mãe, por que é que tu não tens uma profissão?”

Por um instante, senti aquela voz antiga.

A mesma que tantas vezes ouvi dentro de mim, lá pelo início da minha carreira como coach, em 2019: “Tu não és psicóloga… devias estudar Psicologia.”

Durante muito tempo, essa voz trouxe insegurança, insuficiência e desvalorização. Era uma voz que me comparava. Que me fazia duvidar se estava a servir de forma legítima.

Se é o teu caso, se também sentes que não é totalmente legítimo ser coach ou facilitador(a) de parentalidade sem seres psicólogo(a), faz uma pausa e investiga:

» Quais são as vozes presentes? Podem surgir em forma de palavra, frase, julgamento ou sensação.

» O que precisam essas vozes? O que procuram satisfazer?

Com o tempo, percebi que essa voz trazia necessidades importantes: dignidade, pertença, honestidade, reconhecimento, aprendizagem e segurança.

Responder à Sara, desde essa ferida, teria sido algo como: “Então achas que eu não tenho uma profissão? Não vês que trabalho todos os dias? Talvez não seja advogada ou médica, mas isso não quer dizer que valha menos.”

Há uns anos, era isso que eu teria feito. Responder a partir da defesa e da necessidade de provar o meu valor. Essa resposta era um sinal claro do que o meu corpo, elegantemente, fazia: proteger-me.

Mas hoje a minha resposta veio de outro lugar.

Olhei para ela e perguntei, com curiosidade genuína: “Filha, o que é para ti, isso de ter uma profissão?”

Ela respondeu-me que era “trabalhar num escritório, fazer telefonemas, sair de casa”, como algumas mães da turma: umas vão para o hospital, outras para empresas, outras viajam como hospedeiras.

Tivemos uma conversa bonita e até divertida (a Sara tem um humor delicioso).

Lembrei-lhe que quando  tinha 4 aninhos, dizia: “A minha mãe é cunch”.

Falámos sobre o que é o trabalho, o que é servir e o que significa, afinal, ter uma profissão. 

 O que mudou de 2019 até agora? A minha profissão continua a mesma.

Continuo a trabalhar desde casa, a acompanhar pessoas (individual e em grupo).

O que mudou foi a forma de estar na profissão. Tenho mais autoeficácia, autocompaixão e segurança.

Esses caminhos abriram-se quando comecei a compreender mais sobre os efeitos do trauma na minha vida.

Quando comecei a trabalhar as minhas feridas emocionais, os meus padrões de desregulação e as vozes da insuficiência.

Percebi que a legitimidade não vem do diploma, mas da consciência, da ética e da capacidade de criar segurança relacional.

Porque o que, verdadeiramente, diferencia um profissional não é o título, mas a integração entre conhecimento, corpo e presença.

Refletir sobre estas necessidades e sobre o impulso de provar o nosso valor, ajuda-nos a perceber que existem outros caminhos, para lá de precisar de uma licenciatura em Psicologia.

Eu encontrei novos caminhos para nutrir essas necessidades:

  • Investir no meu próprio desenvolvimento pessoal.

A terapia e o coaching ajudaram-me a dignificar as minhas experiências e a fortalecer a minha identidade.

  • Investir em formação.

Entre tantas ofertas, escolhi com consciência e paciência. Percebi que estudar trauma satisfazia necessidades de segurança, honestidade e aprendizagem e aumentava o meu senso de pertença e legitimidade.

  • Investir em supervisão.

Aprender a pedir ajuda, a receber feedback e a crescer com outros trouxe-me humildade e consistência na prática.

  • Ter um peer group com psicólogos e profissionais de saúde.

Isso dá-me clareza, suporte e companhia, e ajuda-me, sem dúvida, a servir melhor.

 Talvez esta carta te lembre, como me lembrou a pergunta da Sara, que o valor da tua profissão não depende do título, mas da forma como te responsabilizas e te comprometes com a tua prática.

E é isso que o PROGRAMA RAIZ representa: um regresso às bases que sustentam o que fazemos, para servirmos com mais integridade, presença e humanidade.

Se esta reflexão ressoar contigo, quero lembrar-te que estão abertas as inscrições para o Programa RAIZ: Fundamentos de Psicologia e Trauma (Teoria e Prática), certificado pela DGERT.

🌳 Um espaço de aprendizagem e integração entre Psicologia, Trauma e Coaching, para profissionais que desejam exercer com mais segurança, profundidade e integridade.

🌳 Um programa certificado pela DGERT que devolve ao coaching e às práticas de desenvolvimento humano o rigor, a ética e o olhar científico que tantas vezes faltam no mercado.

🌳 Um percurso que une teoria e prática e onde a tua profissão, qualquer que seja, encontra mais fundamento e consistência.

Sabe tudo, aqui


 
 
 

Abraço sereno,

Ana Higuera

 

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